Não esperem coerência e coesão em meus textos. As ideias aqui expressadas por mim, se dispõem de modo prolixo, com sentido e articulação que só eu percebo ninguém mais. contudo, não descarto a possibilidade de que, eventualmente, alguns de vocês possam concordar ou discordar delas. Afirmo, portanto, que este blog é uma tentativa minha de organizar e saber a quantas andam meu confuso pesamento, muitas vezes irônico e tantas outras cáustico.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Oitavo Sarau Solidões Coletivas In Bar de Valença

Uma data memorável para mim. Acreditem, nunca irei me esquecer. Com toda certeza ficou gravada em minha memória e na minha pequena alma (minha amiga Teresinha que o diga).

É muito legal quando conhecemos pessoalmente alguns entusiastas das artes que antes viviam apenas na virtualidade das redes sociais. O Carlos Brunno comentou a respeito do evento ser humilde. Nunca me incomodei com isso, como falei para ele, nasci e vivo desprovida de pompas e circunstâncias.  A simplicidade do Sarau em nada desmerece a riqueza que fui em busca e encontrei: versos salpicados de almas. Pedaços de sentimentos que saboreei. Além das músicas e intépretes que deram todo o encanto para a ocasião.

Jaqueline e eu - Valença - 17/11/12
Antes de começar a festa, eu e a Jaqueline coversavamos sobre o modo como o Sarau faz com que pessoas comuns se sintam a vontade para expressar seus sentimentos sem receios. Ia me esquecendo de mencionar o companheirismo entre vocês. Cito um exemplo: a karina que veio mostrar o poema dela, tão empolgada para você dar sua apreciação. Sei que o artista tem sim sua dose cavalar de ego, mas acredito que pode-se conviver egoicamente não é? Achei superdemais essa aproximação sem mestre e sem discípulo, apenas pessoas trocando expressões e visões de mundo entre si. É claro que tudo isso regado ao bom e velho de nervosismo, afinal de contas, não estamos acostumados a refletores. O que lá se mostrou não foi encenação, mas algo que todos temos dentro de nós e que sempre pede para se mostrar. Esse algo é sempre saliente, ele é que gosta de se mostrar. É quase uma criança que quer chamar a atenção dos que estão a sua volta. E por que não? Acho que deu certo.

 Respiramos os ares de Bram Stocker, Cruz e Souza e Led Zeppelin.Cada um dos partícipes, em seu estilo, explorou o terror. A Jaqueline com sua delicada e sensual poesia, cujo eu lírico foi seduzida e sua "Essência Roubada" por um vampiro (http://deliciosailusao.blogspot.com.br/2012/11/essencia-roubada.html#comment-form). O comediante Ronaldo Brechane a indagar-se sobre como seria o laboratório que a Bruna surfistinha queria que a Débora Secco tivesse feito com ela. Intessante pensar nessa possibilidade, afinal de contas a moça tinha uma vida bem agitada entre blog, cama ou qualquer outro lugar apropriado ou não para sua atuação profissional. O Habib a instigar a fantasia feminina ao eleger os vampiros como ótimos amantes, desse jeito vou até querer ser mordida por um deles rsrsr. A Cíbila Farani declamando "as estrelas" de Cruz e Souza, "Tempestade", de sua autoria e desejando uma nova realidade pelo rock tão sonhado, assim como cantando lindamente "meu doce vampiro" da Rita Lee. Aliás, as parcerias musicais são muito boas. O Zé Ricardo e o Fael, se não me engano, fazem parte do Vibração, cujo slogan é de uma criatividade imensa, o que já prenuncia um prazer para sermos felizes, assim como a vontade de fazer o melhor sempre. O Fael cantando e acompanhado pelo Zé bateram um bolão. Ops, desculpe, cantaram e tocaram um bolão rsrsr. A gaita e seus acordes a chorar em nossos ouvidos. Escutar que "Eu não preciso de auréola, nem de religião porque eu tenho a inspiração, não é bão pra lá de metro sô.

Alguns versos esparsos que costumo pegar no ar e anoto em meu caderninho de sempre: "te entrego meu corpo por ti despido", parece um presente desembrulhado com ânsia e prazer contemplativo o que não elimina uma intensão mais do que ativa. Alías, tinha um rapaz com um cadernão que eu adorei. O caderno parecia uma parte dele, um membro não de seu corpo, mas de seu eu. Definitivamente não era um caderno comum, era um livro de vida. O Alexandre a anunciar que a porta do paraíso a estrada leva.

Ainda falando de vampiros, outro verso avulso fala de sugadores de almas e sonhos. Um contraponto com a sedutora figura de Jaqueline e Habib. E continuando noite a dentro, versos brilhantes e enluarados que protegem. Gilson Gabriel com versos que talvez contradigam Parmênides que, segundo ele, o não-ser não é de modo algum. Mas quando Gilson diz que "Você carrega o tudo e o nada... o ser e o não-ser", parece que esse não-ser é de algum modo algo, acho que o Górgias concordaria com o poeta valenciano. Patrícia com uma permanencia quer de dia quer de noite, eis que permanece. Juliana Maia (agora não me lembro se é a Guida) fazendo um pedido a noite. Uma reminiscência socrática me bate de repente com cicuta e licores divinos que me lembram o néctar dos deuses, muito embora até mesmo a cicuta possa ser um instrumento de ligação entre o condenado que aspira ver os deuses ou Deus (não sei, deixo a critério da crença de cada um). Ou ainda uma fusão de morte prazerosa entre um beijo de cicuta (sabe-se lá, o amor as vezes mata de prazer ou não).

Ressalto a participação sempre contagiante do Carlos Brunno. Não posso me esquecer da Dona Isabel, mãe de Juliana Guida Maia, com seus haicais belíssimos e que podem ser lidos na íntegra no blog Diários de Solidões Coletivas (http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2012/11/solidoes-orientais-compartilhadas-os.html). Agora já não posso dizer com certeza quem é a autora de "Noite Mórbida", acho que é a Karina. A primeira estrofe fez minha imaginação me transportar para "onde epitáfios, são presos por magia, e guardados por fantasmas da solidão", não tem um quê de aventura cinematográfica e mágica? Olha que eu não assisto filmes de terror, morro de medo, tenho pesadelos e tudo rsrsr (é sou mulherzinha mesmo rsrsrs, não tenho vergonha de admitir). O link para esse poema é: http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2012/11/solidoes-macabras-tres-noite-morbida-de.html. A Raquel com agudeza do olhar quer "analisar seus sentimentos... quanto suportar", caramba é isso que chamo de imaginação. Cheguei a querer colocar a tristeza, a alegria no microscópio e ver de que são feitos esses e tantos outros sentimentos. A Juliana Guida com o poema danado de bão da Clarice Raquel "Cartas ao Don Juan: você é apenas um 'apenas'" é de lavar a alma de muitas de nós no quesito vingança contra porcos chauvinistas.  Há tantos meros "apenas" neste mundão de Deus. Ainda no mesmo clima, ela declamou o poema de sua autoria premiado e intitulado "O Ruído do Fim" e me sai com um verso lindo "barulho inaudível da sua ausência" e que foi publicado no Jornal Valença em Questão. Por falar nisso, adorei o quadrinho de Panta. Profundamente filosófico Tantos outros participantes que eu infelizmente não consigo atinar obra e autor e, para não cometer mais gafes do que normalmente cometo, peço que me perdoem por não citar todos.

Por último, falo um pouco de minha participação. O poema que li não é meu, é de Fernando Alves Carneiro "O homem e o Cão" que exalta a fidelidade canina. O conto que li foi do Carlos Brunno do livro "Diários de Solidão: quando a ausência faz companhia". Adorei esse conto "Amor é fogo que arde sem se ver (http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2012/11/contos-mortais-de-solidao-amor-e-fogo.html)" porque toca num ponto nevralgico da solidão que mata. Tantas solidões, inclusive a dos saraus proposto por este autor que é pra lá de benéfica. Muito triste passar uma vida inteira sem sentir o calor do abraço de amante, dos beijos e dos afagos que alimentam a alma humana. Quão triste é a morte do eu lírico que só viveu, no exato momento da morte e, quando finalmente se sente abraçado pelo fogo, deita-se em sua companhia agradecido por experienciar sua quentura, face a ausência de uma relação verdadeiramente humana. Dois terrores tenebrosos: a suspeita da não fidelidade (isso não se restringe apenas ao âmbito da relação amorosa) e da solidão. 

Bem é isso que fui capaz de lembrar. A todos agradeço a companhia de uma noite muito especial para mim. É só. Abraços e um até breve.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ocorrência Urbana

Hoje, mais um dia de dia comum, sem grandes expectativas, logo porque nesse calor, minha única expectativa é de estar à sombra e num lugar fresco. 


Fui para o trabalho normalmente. Deu minhas aulas e ao fim do ofício, louca pra chegar em casa, tomar um longo banho frio e almoçar. Qual não foi meu desprazer ao colocar o tal bilhete único (único mesmo, não tinha outro) e ver a informação SALDO INSUFICIENTE. 

E agora? Sem dinheiro (porque a anta aqui, não anda com dinheiro), nem cartão (só o único) e mesmo se tivesse, onde estava nem caixa eletronico tinha. Enfim, estava na merda. Quem me salvaria? Quem? Quem? Meu filhote. Fiquei esperando numa praça até meu filho chegar. Sentei em baixo de uma árvore. Tinha uma brisa gostosa.

Pouco tempo depois, um morador de rua senta junto a mim. Um aluno veio falar com ele. Depois ele tirou sua marmita e começou a almoçar. Como é de se esperar, é claro que ele não me ofereceu, mas do que justificável. Mas a comida dele estava com um cheiro tão bom que meu estomago chegou a roncar timidamente. Ele comeu tudo, para a sobremesa banana e laranja. 

Satisfeito, iniciou uma conversa comigo e se apresentou. Seu nome era Paulo Sergio, reclamou que a Cedae havia demorado para reparar um cano estourado em frente a UERJ e ao ponto de ônibus lotado de alunos que sairam de 4 escolas no entorno e o trânsito começou a dar nó. O Paulo ficou sonolento e disse que tiraria um cochilo, mas estava com medo que eu o roubasse. Afinal de contas, ele tinha escutado minha conversa com meu filho pelo telefone e eu disse que estava sem um tostão furado no bolso - acho que ele devia ter umas economias guardadas na mochila. Bem, o tranquilizei e prometi quenão o roubaria e, logo depois, o cochilo tinha se transformado num sono quase profundo.


Paulo é um mendigo conhecido, pois eu velava por seu sono até que meu filho chegasse, quando um outro homem veio de bicicleta e o acordou. Nesse mesmo instante chegou meu filho. Levantei e deu um tchau pro popular Paulo e segui meu trajeto interrompido pelo bilhete único. Mas, por via das dúvidas, vou passar a andar com uma graninha no bolso que possa pagar pelo menos a passagem de ida e volta para casa. LIÇÃO APRENDIDA. Mas sai no lucro, conheci o Paulo Sergio, um homem e não um mendigo, que hoje me deu a honra de sua companhia.

sábado, 3 de novembro de 2012

Identidade e Movimento Poliédricos



Dentre bilhões de adjetivos, escolho o poliédrico para dar significado a minha visão das belas formas que se ofertam no Identidade Cultural e Movimento Culturista. É sempre um prazer ir ao evento. Não sou uma neófila compulsiva, mas sou viciada no novo que os participantes trazem em suas bagagens. Gosto desse movimento meio que mambembe e de improvisação. Para mim é isso que dá todo o vigor a arte. Impulsos que se manifestam naquele exato momento. Sabe porque digo isso? Vejamos, quando vejo um Márcio Bragança, uma Mel ou a filha da Bia Rustan que sentam naquela caixa acústica (gente, perdão, mas não sei o nome desse instrumento) e nela marcam o rítmo da brincadeira, (séria e lúdica ao mesmo tempo) qual crianças que sentem o mais genuíno prazer no que estão fazendo. Gosto de ser penetrada pelos versos e acordes do Identidade. Como posso eu também não gozar de tal momento. Outro coisa que faz do Identidade ser um movimento em construção é o envolvimento de pessoas desde o início como é o caso de Carlos Orfeu que distribuia panfletos na rua para divulgar esse intento artístico e que fez uma bela homenagem ao Naldo Velho.

Hoje não seguirei uma sequência quase exata rsrsr, logo porque já faz algum tempo e realmente não tenho uma memória privilegiada. Dependo em muito de meu caderninho em que anoto frações do que é dito e também estou meio, como um colega da tchurma disse, em manutenção (adorei essa expressão). Bem, começamos com o mote musical "Vinícius de Moraes" com o Marcio. Em sequência, a Wanda Monteiro nos deu uma visão da fronteira entre a língua e a linguagem. Segundo a escritora, a primeira dá a forma que traduz o que é e, a segunda, é a substância que molda o que pode ser. Na terceira capa do livro de Naldo Velho que foi lançado no evento, Wanda descreve a obra do poeta "Sua lavra cumpre o propósito da poesia, que é o de revelar novas significâncias aos entes e as coisa do mundo", ou seja, um "Nadavelho" em constante construção de neologismos semânticos (liga não, adoro as redundâncias. Como são intensamente saborosas, de lamber os beiços rsrs). 

Em seguida, houve uma sucessão de participantes que desfiaram versos do "rosário" de Naldo. Repetimos nós, os espectadores, um amém a cada poema lido. Foi aí que me perdi na cronologia. Transcendi e perdi o fio da meada. Espero que não fiquem bravos comigo. Foi uma sucessão vertiginosa entre poemas e músicas. Muito bom perder o rumo desse jeito. Quem precisa de retidão quando gestamos tantos embriões in loco?

"O céu está morto e a pedra mais viva que ele" - Não sei o porquê de ter anotado esse verso que Wanda declamou, mas que é lindo é (aliás, proponho que quem participou do evento possa preencher as lacunas do esquecido por mim). Lembrei da pedra de Drummond que tanto pano pra manga deu, pura polissemia. Adoooooro! É chato se ter apenas um lado chapado, nem dá margem a ser 3D. Wanda ainda fez brotar outros excertos dos poemas "É tempo" e "Liturgia da palavra" de Naldo que nos dá uma noção de seu belo trabalho. Poemas que "gostam de andar do lado errado da estrada ou caminhar em silêncio.

Naldo Velho preencheu parte de minha existência com esses versos: "lamber madrugadas" e "não me peçam poemas mansos, só sei caminhar aos tancos e barrancos. Sua dedicatória para mim, mostra o quão humano é a função do poeta "Poesia é ato de coragem/é dizer diferente/aquilo que todo mundo sente". Não li o livro ainda, apenas folheei e nessa ação dei de cara com o poema "Gente Enluarada" que tem a mania de desentranhar coisas do seu e de muitos umbigos. Essas pessoas conseguem sobreviver à ruina e constrói a cada dia um sonho. O autor se autodenomina como não sendo um poetas e sim, um exorcista e buscador de amplitudes. Digam, essas palavras dele não fazem doer a alma de tão boas que são?

Eis mais uma lacunar anotação. É sobre a música (não me lembro qual). É uma música que se deve ouvir ao abrir a janela todos os dias, deixar que o sol aqueça o corpo e os versos a alma. A Mel falou que "já bebi caminhos de puro desassossego".

Agora um ponto de quentura corporal foi o estilo repentista de Janaína Cunha e Wanda Monteiro com poemas que enlaçam o corpo e ascendem a um patamar nada casto, mas extremamente divino. Adorei a disputa poética, que por tabela, atingiu um rosto que rapidamente se enrubesceu, mas morro e não digo quem foi, kkkkk. Sabe que me passou pela cabeça que gostaria de ler um poema intitulado "Palavras desavergonhadas" (alguém se habilita? é só uma sugestão). A Érica, solícita, logo aparece com seu "Terapia" trazendo uma rima toda prosa que escorregou na corda bamba. Além disso, trouxe paliativos como poemas aromáticos com odor de cedro, cerejeira e ipê. Contudo, não fugindo ao momento de inquietude, anotei esse verso: "se poesia fosse prostituta seria infeliz, mas venderia". Ananita declara que Jorge, o amado, era maior que sua carne". Depois Marcio e Wanda me faz recordar com saudades profundas a Elis. O sambinha que alegrou meu corpo e sacudiu a alma e nos incita a vivermos de amor. Para que de dia ela (e) lave roupa e de noite me beija a boca (sorry, não sei de quem é).

A dupla Joilson e Ingrid foi maravilhoso. Ingrid sacode os versos de Joilson que saracoteiam entre as mesas, quase peguei alguns, mas os deixei ir, versos são de natureza livres e quando vem até nós, eles são revestidos por nossas interpretações (como bem disse Janaína) e partem para outros portos onde serão novamente reinterpretados. Mel contribuiu com seu característico vigor que faz tremer o coração quando pega aquela caixa. Uma alternância perfeita entre música e poesia. Lá fiquei a ver o desfile de ambas. Em seguida tivemos a Alessandra Moraes que ama "todas as formas de vidas" e nos faz ver que "todos temos uma casa abandonada" onde os fantasmas nos olham. Eu digo que amo a forma de viver poeticamente dos poetas. Hélio Sória canta os Beatles e foi uma festa danada. Mel e Bia Rustan entram numa Bifurcação e afirmam que "hoje [sabem] que [seus] passos certos são os mais incertos" e que "nosso amor é miragem e areia no deserto". Uns atravessam e outros escorrem pelas mãos.

Por último, falo do projeto "Trilha sonora para livros". Achei a ideia muito inovadora. Sempre temos trilhas para filmes, mas nunca havia pensado numa música que me remetesse a um livro. Adorei a ideia do leitor ser embalado com a voz da garota que é muito bonita. Da performance do Don Juan que queria ir embora para a casa poesia e ficar entre o silêncio e a mudez. Por fim, cito a poesia mística que respeita "o universo por me fornecer tudo isso". Cara, a garota tem uma memória que me deu uma inveja tenebrosa. O poema dura em média, pelo que ela falou para a Janaína, uns 15 minutos. Mas acho que ela precisa trabalhar melhor o modo como deve apresentá-lo (precisa de tempo e vagar. É um poema-livro, algo meio que biográfico, não sei ao certo, pois o tempo era curto e não foi possível ela apresentar tudo). Mas fiquei impressionada, me fez lembrar um ator portugues, António Fonseca, que apresentou "Os Lusíadas" de cor. Um feito pra mim, por isso dediquei-lhe um post http://omundomentaldemaria.blogspot.com.br/2012/06/apresentacao-teatral-de-os-lusiadas-de.html (para quem quiser saber um pouco mais).

Bem, é isso. Até breve!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Romantismo

"Eu queria pedir que você nunca roube, minta ou traia.

Mas se você tiver que roubar, roube todas as minhas tristezas.

Se você tiver que mentir, minta, mas para poder passar todas as
 horas comigo.

E se tiver que trair, traia a morte porque eu não posso passar
 um dia sem você".


Quando ouço palavras como as que coloquei em evidência, percebo que apesar de todos os pesares, ainda continuo romântica, do mesmo modo que era em minha adolescência, se isso é démodé ou brega, sinto desapontar, mas ainda quero encontrar alguém a quem um dia possa pedir tais coisas. 

Por mais que a realidade diga que isso não existe, minha alma teima em ser ridícula, burra e irracional. O texto foi retirado do filme Casa Comigo? Um filme tipo "mamão com açucar" (como dizem os céticos em relação ao amor), mas com um enredo tão simples e encantador. A paisagem (acho que é irlandesa) é deslumbrante. Eu também tenho minha dose de ceticismo. Contudo, ainda tenho fé no amor. Vivemos à sombra de ideais televisivos ou cinematográficos. Existe amor em sua plenitude real, isto é, são amores que nascem de modo parecido ou não como os que são retratados nesses veículos de comunicação. São amores que brotam, se constroem ou as duas coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes deixamos de ver esse amor porque nosso imaginário está sobrecarregado desses ideais socialmente ou economicamente criados. 


O que nos vendem como amor? Por que gostamos de ser iludidos quanto a esse tema ou será que ele não é um tema, e sim uma parte de nossa natureza latente? As vezes nos equivocamos entre a ficção e o possível real (que pode ser mais belo que o ficcional). A pergunta mais do que batida retornou a minha mente: a vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Poxa, quando ouvi a personagem falar esse texto para o noivo, vi que para mim não faz a menor diferença se é ficcional ou não.  Constatei, além disso, que meu ceticismo é muito falastrão. rsrsrs Eita como é constrangedor nos ver como de fato somos: meros mortais humanos, contraditórios e ilusionistas de si mesmo.


sábado, 20 de outubro de 2012

Minha Primeira Noite na Taverna



Acreditem! Há esperança para o mundo.

Ontem fui ao encontro de Uma Noite na Taverna pela primeira vez. Encontro às cegas sem dúvida. Pois com uma Carminha de partida e ainda por cima as ofertas de aniversário do supermercado Guanabara. As chances de fracasso absoluto pairava nefastamente sobre o evento. Mas para minha surpresa, nem essas duas pedras, a midiática global e a do trânsito cada vez mais caótico dos centros urbanos foi capaz de deixar a Taverna às escuras para o público que foi assistir.

O homenageado foi Ferreira Gullar que ressalta a ideia de que "a arte existe porque a vida é insuficiente". Não sei se já falei, mas Gullar e Marcos Lucchesi foram os poetas que fiz questão de que meu filho conhecesse pessoalmente aos 8 anos de idade. Ele adorou os cabelos de Gullar e uma história de uma galinha (se não me engano, e quase sempre isso acontece). Dois poetas por quem tenho o maior apreço.

Mas voltando a Taverna, a apresentação da Banda Nova Ordem Alternativa foi ótima. As músicas com letras extremamente poéticas e o som e a voz do vocalista super gostoso de ouvir (como não sou muito dada aos movimentos dançantes, limito-me a mexer a cabeça, os pés e os dedos, tudo quase imperceptivelmente - tão sutil que ninguem vê, só eu. Isso porque estava empolgada, pois quando estou terrivelmente tímida, os movimentos são só interno, digo, mentalmente). Destaco a música "Inteligência Artificial". Alguns versos que adorei "histéricos sem luz e ainda cegos", "os filhos da miséria estão armados para matar", "amarelos homens girassóis" e "inércia da evolução"

A apresentação de Lara trouxe um tom militante interessante de conferir mais de perto. O pandeirista que a acompanhou em dado momento, deu um tom improvisado e bem vindo. Carlos Eduardo entra em cena com foco no existencialismo simples e fugaz, desde o religioso às contradições humanas. É bem eclético. Do poema Erê cito o verso "filhos bastardos do Brasil". Do Marcos Vaseck (não sei se é assim que se escreve) saliento o verso "o novo é repetição de algo que ainda não se viu". Concordo com ele, pois, para mim, existe um Logos (é como um pomar que se oferece para ser colhido por aqueles que saboream seus frutos - interpretação vulgar minha e não a definição filosófica) como pano de fundo que dá todas as ferramentas do dito e o ainda não dito. Toda a criatividade humana está imersa nesse logos. "num mar de gente, todos os desiguais tornam-se iguais" e "a vida só consome o que alimenta", anotei esses versos por alguma razão que agora não me ocorre o porquê. Mas fica aqui o registro de mais uns algos que se perderam em minha mente confusa.

Para finalizar o evento, relato uma produção poética de Narducci e outro poeta (que não lembro o nome) que gostei pra caramba. Acho que posso dizer uma disputa temática sobre o pavão. De um lado o pavão como uma mera figura estética de beleza cujo conteúdo é questionado; de outro (o Narducci) criou uma apologia poética a pobre ave que como fenix ressurge gloriosa beleza, propriedade que lhe é natural em essência.

Quase ia me esquecendo de falar do ambiente agradabilíssimo. Uma noite fresca, de vento suave e cheiro de velas a queimar como num retorno as antigas tavernas com suas lamparinas e meia luz. Lá não dava para apagar todas, mas o simulacro foi de bom tom. Um vinho tipicamente tavernesco que adorei, trouxe-me a ideia da embriaguez de tais locais. A formação de uma estalactite de cera nas garrafas postas nas mesas me remeteu as pinturas rupestres que os pré-históricos legaram a nossa civilização como vestígios da arte que extravasa o ser mesmo sem que este se dê conta (ou dava e não sabemos, nada temos senão hipóteses do que eles intentavam ao fazer tais desenhos - será que um dia saberemos?) e para por fim ao que digo, não apaguei a vela de minha mesa. Que a chama da arte ali ofertada tenha trespassado o próprio local e tenha se espalhado pelo pedaço de céu que vislumbrava de meu lugar de observação que me dá a nítida sensação de que não sonho sozinha. É isso minha gentennnn (agora convoco a Amélia que há em mim, para a faxina).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Até mesmo as pedras precisam ser digeridas

Como é triste saber que para lidar com determinadas pessoas, preciso é que se tenha estômago de avestruz. Ah! a diversidade dos indivíduos. Um grande padecimento no paraíso. rsrsr (sem graça)

domingo, 30 de setembro de 2012

Nos Embalos do Identidade Cultural e do Movimento Culturista

Bem, parece que esse evento se tornará parte de meus movimentos sociáveis. Vou dizer o porquê, Senhoras e Senhores! 


Foi a segunda vez que participei do Evento Identidade Cultural e Movimento Culturista, que me foi apresentado pelo amigo, Carlos Brunno, do Sarau Solidões Coletivas. Acreditem! Nunca vi uma concentração tão alta de arte por metro quadrado, como foi ontem no Bistrô Café do Bom, Cachaça da Boa. Foi uma especulação artística mais do que rentável, foi espetacular. Querem saber como se enriquece até a alma das 11:30 às 17:00? Apareçam por lá no próximo evento e verão com seus próprios olhos e sentirão com suas próprias almas.

Eu deveria me preocupar em falar sobre esse evento (pois merece mais do que aplausos, merece todo o cuidado que um jardim requer), mas não vou, pois minha finalidade nesse blog é dizer o que sinto sobre isso ou aquilo. Meu relato será sobre o prazer que senti em ter assistido a apresentação de tanta gente boa, que estou ainda nas nuvens e não sei bem ao certo por onde vou começar (talvez pelo começo, que acham rsrs hummm). Então vou inspirar profundamente e expirar  ......... pairo sobre mim mesma e elevo o pé direito para baixar na terra ..... inspiro mais profundamente e expiro..... baixo o pé esquerdo..... inspiro e expiro mais uma vez e vamos lá.

Raramente acordo mal humorada (atualmente). Quando tenho um compromisso que desejo que dê tudo certo, faço meus rituais para trazer bons fluidos. Tipo ouvir minhas músicas prediletas às 7:00 da manhã (não me perguntem sobre meus vizinhos, mas isso não é tão frequente - terão de me aturar, eu também os aturo). Dependendo do horário, já começo a fazer aquela faxina na cara (dá um trabalho dos diabos ficar um pouqinho apresentável) e depois parto sem demora, mesmo estando atrasada. Foi o que aconteceu ontem. Cheguei as 13:00 e já não tinha mais mesa. Janaína, a fada das criaturas desengonçadas (euzinha), me apresentou a uma amiga e perguntou se eu podia ficar na mesa dela. Erica me adotou e quando dois amigos (Carlos Brunno e a namorada Juliana) chegaram eu perguntei se eles podiam sentar junto conosco e ela gentilmente permitiu. Então cometi uma gafe horrível. Acredita que eu, na hora de apresentá-la troquei o nome, disse que era Rita (Não se preocupem, pouco tempo depois cometi o mesmo erro - isso é muito comum em mim. Tenho uma memória desastrosa).

Vejam nem tudo eu consigo lembrar. Mas anotei algumas frases ou versos dos artistas que se apresentaram. Perdoem-me aqueles que não menciono. Lembro-me da apresentação, mas não de todos os nomes e para não cometer gafes, mais do que já cometi ontem, prefiro me calar.

Como cheguei atrasada, o Márcio Bragança já estava cantando e protestando contra algumas atitudes políticas de alguns ídolos da música nacional (estou tentando lembrar exatamente o que era, mas não consegui ainda). O Rode com seu e nosso "subúrbio" e a "(...) reunião das minhas [e nossas] últimas ignorâncias".

Agora falo sobre uma poeta muito, mas muito especial. Paloma Aiane, uma adolescente talentosíssima. Mas não falo de talento por generosidade ou por querer ser simpática. Falo de uma artista de primeira categoria. Talvez num futuro ela opte por não ser poeta. Mas digo que se ela quiser, hoje, for incentivada e tiver oportunidade,  não tenho dúvidas que atingirá o topo. Eis como ela começou sua apresentação: "Não faço poesia, escrevo usando a linguagem poética". Isso é só pra se ter noção da força dessa garota. A poesia "Tempo de Renovação" é uma crítica política impressionante para uma menina de 16 anos. Outra poesia foi "Quero cuidar de você". Esse poema foi cantado. Separei um ínfimo fragmento que ela escolheu, da Hilda Hilst para nos brindar "A vida é crua ... líquida"  A apresentação de Paloma não se restringe apenas a leitura, mas a uma performance primorosa de canto e gestuais. Isso sem contar com a voz que me encantou com sua suavidade e afinação. A apresentação dessa jovem, nos remete as antigas perfomances dos Aedos em que versos, voz e corpo convergiam para que a poesia se fizesse presente de modo indelével na alma dos espectadores. Foi isso que aconteceu ontem, que até chorei de tanta emoção. Uma coisa é ler sobre esse fenômeno nos livros e outra é vivenciá-lo. Foi incrível!


Estão pensando que parou por aqui, ledo engano, meus caros amigos. Cada indivíduo, a seu modo, contribuiu com o melhor de si. Sem mesquihez e sem avareza. A atração seguinte foi um outro capítulo digno de nota. Mel, sua voz assim como o nome é doce e energética. Seus cabelos brancos apenas indicam que idade não existe. Que é meramente um modo de contar o tempo cronologicamente, nada mais que isso. Ah! Detalhe, tudo de imporviso. Imagina se fosse previamente combinado. Ela ainda participou mais 2 vezes. Depois dessa mulher, tivemos a presença de Wellington (acho que é assim que se escreve) que afirma "Não sou eu que faço poesia, é ela que me faz" e um excerto de sua poesia fala de um baú em que guardamos coisas velhas para um último adeus e lá encontraremos um "saquinho de lágrimas". Diz, isso não é o máximo! Lembrei do Bispo do Rosário com sua coleção de coisas para mostrar a Deus quando o encontrasse. Um outro verso que gostei muito foi o de Zélia Balbina, que veio de Maricá (assim como a Mel) só para nos presentear com "(...) a pele goteja calor".

Um outro capítulo (acho que posso fazer temporadas) foi a performance contagiante dos Urbanos em Causa. É impolgante, elétrico. Uma crítica aos desmandos e caos urbanos para lá de bão genten! Usa algumas tecnologias para nos colocar simultaneamente em contato com a música, imagens e poesia. Olhem a seleção de versos que escolhi: "O colarinho do chopp escorria em franjas (agora deu uma vontade imensa de beber esse colarinho rsrs) .... Quem me salvará? A P O E S I A", "(...) A sociedade intoxicada de verdades" e finalmente "tá tudo pacificado, tá tudo pacificado". O que mais posso dizer da apresentação de Sergio Gerônimo Delgado e Mozart Carvalho, senão, que é um trabalho de sangue suor e poesia urbana. Em seguida vimos o artista plástico e poeta Peu Freitas que expos suas máscaras sociais.

Agora vem os Dois Carlos, o Orfeu e Brunno. Orfeu nos revela que traz versos que estão "resistindo ao cimento do tempo", "úmidos com versos de areias", "estrangeiros estradas de si" e "lhe amando como o lobo ama a lua". Não é de babar? Logo depois veio a dupla Carlos Brunno e Orfeu interpretando "Uma longa viagem de Jim". Pirou meu cabeção com esses versos "Inspiração nua, acenda a luz e me diga: sou sua! / faça-me uivar com meus infinitos lobos despertos no peito / O verso não está preso / Olhos fechados que enxergam o fim das ilusões / o corpo da garota de Ipanema, numa louca dança, numa dócil orgia / e seu corpo é feito de versos loucos / a inspiração de pernas abertas ...". O poema é tão cadenciado em figuras poéticas que nos poe em estado alucinógeno. Orfeu e Brunno fazem amor com nossas almas por meio de seus versos sincopados.

Outra atração musical foi Hélio Sória que cantou e nos deu uma amostra de seu próximo trabalho intitulado "Eu não sei dizer adeus". Depois Regina Tchelly nos falou sobre seu projeto Favela Orgânica e seu risoto de casca de melancia que é um viagra natural, segundo suas palavras. Também a Juliana e Djan falaram sobre o projeto do blog para novos escritores. Logo depois foi a vez de Cristina Lebre e seus Olhos de Lince em que encontramos o poema "Orgasmo" que contém versos como "a sala é o infinito / nós, os filhos do primeiro orgasmo". Muito bela essa concepção quase teologal. Em seguida, Afrânio que falou dos lábios de sua amada, Cristina, e das "línguas que não se cabiam em si" e da arte de ser Jardineiro. Bem Cristina, eis aí o seu Jardineiro Fiel rsrsr. A Ana Anita que falou de seu blog e, se não me engano, de um projeto sobre a história de Niterói (fiquei curiosa e querendo que ela fizesse o mesmo por São Gonçalo. Ô cidadezinha abandonada pelo Sistema governamental.

Agora falo sobre o mais fabuloso desse dia: o convidado especial e  centenário ou quase centenário (99 anos), Bob Lester, integrante da Banda Bando da Lua, que acompanhava Carmem Miranda. Antenadíssimo, foi o primeiro a nos falar sobre a morte da apresentadora Hebe Camargo e lhe dedicar uma música. A vitalidade desse homem é indecente, meu Deus! Ele dança com castanholas, tem uma voz limpíssima. Provavelmente devem tê-lo amamentado com a famosa casca de melancia, só pode. É uma possível explicação para tanto vigor. E mais, é um grande fã da Claudia Raia. Pessoal, por que não fazemos uma campanha para a Claudia Raia aparecer lá e dar-lhe um abraço. Acho que seria um ótimo presente para este homem de UM SÉCULO de pura poesia e meninice. Só quem o viu atuar entenderá, que quando digo que a arte eterniza e atemporaliza qualquer criatura quer no corpo quer na mente. Carlos Brunno fez uma poesia especialmente para ele em que diz "deuses não precisam de registros". De fato, deuses apenas são.

A rapper Mabu arrasou com seus versos críticos afirmando que "o que me derrubou não me deixou no chão / o futuro do Brasil está craqueando por aí" Existe verdade mais patente do que essa em nosso país? Duvido! Aproveitando ainda a Mel, Dudu, o filho do zé, cantou sua poesia "Cordel-funk do índio". Nela, ele narra a história de um índio que veio da floresta para o Rio de Janeiro e lá encontra costumes esquisitos "tinham roupa por cima e ainda tinha roupa por baixo / encapam o piru com plástico quando estão namorando / tem muito espaço livre mas nenhum pode morar / ta viciada, ta muito viciada essa sociedade da troca imediata". 

O microfone aberto é um momento super especial. Janaína tem razão. A arte quer sair e quando encontra pessoas como essa poeta, mãe e mecenas, não tem correntes que a aprisionem. Faz-se até fila para que ela possa transbordar por meio de muitas vozes dos adeptos que a escolheram ou foram possuídos por ela. Janaína, não sou jornalista, encontrei no ato da escritura desse blog, um modo de respirar para viver e tentar organizar meus pensamentos e me conhecer um pouco mais (até bem pouco tempo atrás, eu nem sabia que existia para mim mesma).

Eu iria terminar meu relato por aqui. Mas qual não foi minha surpresa ao sair do Bistrô. A arte é algo que fica impregnado na gente. Ela atrai arte. Sua natureza faz com que ela se esparrame e atraia tudo que tem sua essência. A poucos metros do Bistrô, em frente ao Palácio Tiradentes, encontrei um gurpo que protestava contra a poluição política visual e sonora. Os cartazes de propaganda política serviam de tela para pintores (uma ótima finalidade, diga-se de passagem). Conversei com alguns ativistas e segui o meu caminho em direção as Barcas. Porém, antes de chegar a meu destino, me deparo com os pilares do viaduto da praça XV sendo pintados por artistas, foi como Wagner se denominou. Perguntei-lhe se era grafiteiro e ele disse que não. Pois o grafiteiro não tem permissão para fazer o que ele estava fazendo com permissão da Prefeitura. Aceitei sua concepção. Afinal de contas, ele é quem mete a mão na massa. Eu so sou uma abelhuda. Uma voyeur das manifestações artísticas. Enfim, a obra do rapaz é instigante. Dimensões muito grande, é de se esperar, já que sua tela é uma pilastra gigantesca. As cores são muito bonitas. Dá uma sensação de um mundo pujante. O desenho revela um boca comum a dois corpos. Dois seres compartilhando uma mesma boca. Cara, eu gostei para caramba. E ainda tem alguns retardados que dizem que esses rapazes são vagabundos. Que vagabundo se ocuparia de uma pintura por 10 horas consecutivas para vê-la pronta. Tudo bem, não sou ingenua. Sei que há algumas coisas estranhas, mas me digam, em nossa comportada sociedade também não o há? Quem quiser ver, pode ir à Praça XV e depois me fala como ela ficou (não estava pronta ainda).

Eis aí a imagem terminada. Ficou linda!
Outras imagens podem ser vistas no link http://blog.estudiodurer.com.br/?tag=grafite

Acabo sem prévio aviso. Até a próxima!



sábado, 8 de setembro de 2012

Estados Psicodélicos e Nostágicos I

Todos os meses entro em estado de tensão máxima, é a maldita TPM. É um misto de nostalgia e superagitação mental. Alguns dizem que parece bipolaridade. Não sei, mas não consigo definir se é ruim ou  não. Pois, se por um lado, choro igual bebezinho com fome só porque o arroz queimou, por outro, minha criatividade é acionada e fico na maior fissura (me dá um trabalho dos diabos me controlar. Olha que nem barbitúricos tomo, imagine só se o fizesse? rsrsrs).


Homens, acreditem! Não é nada fácil transitar entre esses dois estados de ânimo concomitantemente.


Para piorar ainda mais a situação, resolvi, nesse feriadão, assistir uma seleção de filmes: Meia Noite em Paris, Branca de Neve e o Caçador, Melancholia, Utopia, Valente e o videoclip da música final deste último filme, "Answer (mais adiante, num outro post - a saga continuará - falarei a respeito dela). Dentre esses 5, só um não puxa pra baixo. É "Meia Noite em Paris".
Marion Cotillard e Owen Wilson
Meia Noite em Paris é um filme de Woody Allen. É leve, delicioso de ver. Uma comédia romântica. A estrutura espaço-temporal é uma arquitetura técnica bem elaborada. Um quê de loucura do Woody. Aliás, a maioria de seus filmes tem uma cisão com o tradicional. Ele é uma criatura que pode se dar a esse luxo. É cultíssimo e sabe como ninguém utilizar seu vasto conhecimento na elaboração técnica e conteúdo de seus filmes (nossa, acho que tem muito "ura" nesse parágrafo, mas vou deixar assim, senão não escrevo metade do que pulula nessa memória de ameba). Bem, voltando a ruptura do espaço-tempo, há uma intersecção no tempo presente e passado. Gil se descobre perdido em Paris à noite e, senta-se numa escadaria, quando aparece um carro antigo e seus ocupantes o chamam para dar uma volta e, essa volta, o leva para o passado, na década de 20. 

O tempo presente é monótono, decepcionante, sem cor e sem vida para Gil, o escritor hollywoodiano desencantado com seu ofício. No entanto, o passado é vibrante, cheio de expectativas, agitado, criativo. Seu singelo passeio o leva a uma festa onde ele inacreditavelmente se encontra com  Cole Porter, Scott Fitzgerald e sua excêntrica esposa, Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway entre outras celebridades históricas do mundo das artes.  É o mundo onde a arte é o pilar central, no presente, ela é um mero adereço. Algo para ser apenas jogado de modo pedante por alguns Medalhões (como bem classificaria Machado de Assis).

No passado, a nata artística desfila serelepe. Tem-se representantes do cinema, da artes pictóricas, da dança, da música. Dentre os já mencionados, podemos acrescentar Pablo Picasso e sua amante Adriana, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Gertrud Stein, Man Ray, Joséphine Baker, Paul Gauguin, T.S. Eliot, Henri de Toulouse-Lautrec, Henri Matisse, entre tantas outras personalidades brilhantes desse Clube das Artes. 

Falando sobre clube, estou a ruminar essa questão há algum tempo. Lembro de alguns exemplos e vejo que não têm o mesmo sentido. Não sei se é por causa da velocidade de nossas vidas ou se por uma questão de ego exaltado. Mas o fato é que nos antigos pontos de encontros de artes não havia hora marcada com antecedência. Todos ou parte se encontravam num horário para tomar chá, café, bebidas, etc. Não tinha um agendamento prévio. Falava-se de tudo e de todos. Os ânimos ficavam exaltados, mas o que resultava era a própria arte em ação, em construção. Alguns se odiavam e debatiam em público seus gostos e desgostos artísticos. Lavava-se a roupa suja ali e depois outra vez. 

Hoje, eu sinto uma certa apatia no mundo literário e, de modo geral, das artes. Os Clubes são herméticos, cheios de patotinhas tão infantis que me irritam. Não há abertura para discussão e, quando há, ficam ofendidos sobremaneira. A maioria que se encontra está em estado permanente de defesa desses egos. Os comentários se perdem em ferramentas digitais que poderiam revitalizar esse diálogo e suprir a distância entre artistas e artistas e entre espectadores e artistas. 

Caramba! Se o meio digital tem possibilidades de interações diversas, parece que nesse âmbito, precisam ainda serem repensadas. Tudo bem que uns podem afirmar que disponibilizam o texto no meio virtual e se os visitantes gostarem ou não, tanto faz. Concordo do ponto de vista do gosto, mas discordo do ponto de vista da perda e do enriquecimento que esse diálogo poderia trazer às pessoas e à Cultura. Para exemplificar isso que estou me referindo tão alopradamente, vou lançar mão de uma algumas personalidades. 

Primeira dupla, Goethe e Schiller. Eram amigos pessoais e divergiam na arte em que cada um acreditava. Goethe defendia o romantismo e Schiller atuava numa vertente chamada Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Quando Schiller morreu, Goethe perdeu seu grande interlocutor e incentivador. Eram críticos entre si. Um instigava o outro a prosseguir, mesmo que divergindo.

Segunda dupla, Van Gogh e Gaughin. Talvez não divergissem tanto, mas têm suas particularidades e estilos próprios. Juntos exploraram e experimentaram o mundo das cores. Hoje percebemos o quão benéfico foi para as artes essa união entre os dois. 

Agora vamos trazer a discussão para dias mais próximos a nós. Elejo meu adorado J. J. R. Tolkien e C.S. Lewis. Encontravam-se regularmente para lerem capítulos um do outro. Discutiam a estrutura da narrativa, o estilo, o pano de fundo. É claro que não concordavam sobre muitas coisas, mas o movimento de suas criações era visível, era corrente. Eles sabiam em que pé andava a arte de seu tempo e deles mesmos, porque eles faziam parte desse movimento.

Enfim, ainda desejo que em nossa atualidade possamos alcançar essa maturidade discursiva e não nos fechemos em nossos egos e deixemos escapar as possibilidades desse movimento em nossa arte verdadeiramente contemporânea do hoje, do agora. É isso o que desejo. Muito embora não seja artista, mas me considero uma grande apreciadora e amante de todos os tipos de artes.

Fontes: (quem não conhecer todos os personagens do filme, podem visitar essa página eletrônica http://www.ospaparazzi.com.br/celebridades/meia-noite-em-paris-saiba-quem-e-quem-4788.html - lá encontrarão uma relação de quem é quem).